Quem deve salvar o MPLA? – Carlos Alberto*
Um ponto assente: é consensual, pelo que leio e pelas abordagens que oiço nas ruas, que o MPLA não vencerá as próximas eleições gerais de 2027.
O que as pessoas argumentam nada tem a ver com um eventual “bom trabalho” da oposição. Não é a oposição que ganha terreno em desfavor do MPLA; é o próprio MPLA que se corrói a cada dia que passa, empurrando o povo a escolher outra alternativa política, seja ela qual for, ainda que não convença plenamente ninguém. A ideia que paira no ar é simples e directa: tirar o MPLA do poder, seja com que partido ou coligação for. O povo mostra-se agastado com os múltiplos problemas sociais, sem qualquer solução estrutural à vista.
Isso faz-me lembrar a situação de uma hipotética pessoa que esteja a afogar-se. Quem se afoga não avalia a “qualidade” da mão que lhe é estendida para sobreviver. Agarra-a. O povo angolano — pelo menos é o que leio e oiço diariamente nas ruas — equipara-se a essa pessoa que luta para não submergir. A lógica tornou-se pragmática: votar em qualquer outro partido, desde que não seja o MPLA.
No recente debate promovido pelo Portal “A DENÚNCIA”, o sociólogo e quadro sénior do SINSE — é assim que se apresenta — Miguel Ângelo afirmou que ninguém salva o MPLA: nem Higino Carneiro, nem Adão de Almeida, nem António Venâncio, nem qualquer outro que venha a ser indicado como cabeça-de-lista para 2027, se nada do quadro actual se alterar. O problema é que nomes não mudam nada se não se alterar o estado de coisas o quanto antes. O MPLA até já perdeu tempo demasiado, por culpa própria, para alterar essa imagem negativa.
Recorde-se que já enviámos um pedido formal de esclarecimento ao chefe do SINSE, Fernando Garcia Miala, onde perguntámos a “qualidade” de Miguel Ângelo, e que, até ao momento, não houve resposta; faltam cinco dias úteis para o término do prazo que estabelecemos antes de darmos sequência às matérias relacionadas com o Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE) e o seu chefe. Na próxima sexta-feira, 6 de Março, termina o prazo dado pelo Portal “A DENÚNCIA”.
Segundo aquela análise, ninguém, no MPLA, demonstra capacidade para puxar a mão da tal pessoa que se afoga. Esta percepção pública ganha corpo todos os dias. Não porque a oposição apresente soluções extraordinárias ou um projecto nacional irresistível, mas porque à frente do MPLA está uma pessoa chamada João Manuel Gonçalves Lourenço, que lançou a Agenda Política do MPLA para 2026 e, na alínea c) dos objectivos específicos, deixa transparecer que concorrerá contra si próprio. Ou seja, será candidato único à sua própria sucessão.
Isto significa que o próprio presidente do MPLA não parece preocupado com a mão que, em 2027, deverá salvar o povo que se sente a afogar. A preocupação central parece residir noutro lugar, ainda desconhecido — mas que o tempo se encarregará de revelar —, nem que o preço político dessa insistência venha a ser o empurrar do povo para uma convulsão social evitável e perigosamente previsível.
A Agenda Política do MPLA para 2026 veio reforçar a convicção de que o IX Congresso Ordinário não permitirá múltiplas candidaturas. No MPLA, tudo indica que há um proprietário político do partido. E o proprietário permanece sentado na sede que ele próprio construiu — e ponto final. Poucos ousam discutir o assunto. João Lourenço faz questão de mostrar ao país e ao mundo que, se houve alguém capaz de desafiar o líder anterior, José Eduardo dos Santos, foi apenas ele. Só ele tem coragem no MPLA. Mais ninguém tem.
O actual presidente do MPLA parece igualmente empenhado em demonstrar que, afinal, não existem intelectuais com voz própria no partido. Professores doutores, mestres e licenciados surgem, nesta leitura crítica, como meros figurantes de um sistema onde o acesso às benesses substitui o debate interno. A consciência cívica, ao que parece, não consta da ordem de trabalhos.
Isto significa que o próprio João Lourenço, com todo o MPLA alinhado de Cabinda ao Cunene, nas 21 províncias de Angola, poderá não se importar de perder as eleições gerais de 2027, desde que a vontade individual do chefe seja satisfeita. É uma leitura dura, mas é a leitura que cresce na opinião pública.
Quem deveria salvar o MPLA é o próprio presidente João Lourenço, determinando a revisão da Agenda Política do MPLA 2026, de modo a permitir múltiplas candidaturas e, quem sabe, apoiar a emergência de um correligionário com ideias renovadas. Tal gesto demonstraria maturidade institucional e confiança interna. No estado actual, a Agenda Política configura um autêntico suicídio estratégico.
Nesta fase, já quase ninguém manifesta entusiasmo pela continuidade do MPLA na governação. Como poderia um simples cabeça-de-lista, ainda que jovem e com discurso moderno, convencer o país e o mundo de que sopra um vento novo, se quem detém o controlo efectivo do partido é o mesmo responsável pelo desgaste acentuado da sua imagem? Quem votará no MPLA com um alegado rosto novo, mantendo-se inalterado o centro real de decisão?
Fica claro que a Agenda Política do MPLA para 2026 acaba por empurrar o povo a votar em qualquer mão que lhe prometa salvação, mesmo que essa mão não apresente qualidade comprovada. Quem se está a afogar escolhe a qualidade da mão que o puxa? Quando se trata de sobreviver, a prioridade não é a excelência. É sair da água, mesmo que na superfície o mundo tenha desaparecido.

*Jornalista e Director do Portal “A DENÚNCIA”
+244 923 570 539 (WhatsApp)
01Mar26




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