O “terror” instalado no Sequele

O “terror” instalado no Sequele

Quando um jornalista de investigação é alvo de uma invasão residencial, sem que nada seja levado, no dia de uma Grande Entrevista, e sem qualquer explicação por parte da Polícia ou de outras autoridades, a sociedade limita-se a ler e a cruzar os braços. Ninguém emite uma nota de repúdio contra o acto. Nem mesmo a classe jornalística. O silêncio instala-se com uma naturalidade perturbadora — como se a anormalidade fosse já rotina.

Por: Carlos Alberto*

Há um adágio popular que diz: “Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as tuas de molho.” A sabedoria é antiga, mas parece ter perdido actualidade entre nós. Preferimos assistir ao incêndio do quintal alheio como se o vento não pudesse mudar de direcção.

Hoje, domingo, 1 de Março de 2026, os meus vizinhos não param de me ligar para que eu escreva sobre o que aconteceu às suas viaturas e sobre o “terror” que se vive no município do Sequele. A indignação cresce quando o fogo chega à porta de casa. Mas as pessoas esquecem-se de que, se hoje acontece com um vizinho, amanhã poderá acontecer o mesmo — ou pior — com elas próprias. A indiferença selectiva é um luxo perigoso.

Nesta madrugada, a “cidade” (aspas porque o conceito de cidade é outro) do Sequele presenciou o incêndio propositado (fogo posto) de sete viaturas incendiadas em quatro dias, de acordo com relatos e com imagens postas a circular. Os vizinhos dizem que já aconteceu o mesmo em madrugadas anteriores. O Comando Municipal do Sequele informa ter detido um cidadão que se confessou autor dos actos, alegadamente sob o efeito de diazepam (“légua”) e afirmando que lhe teria “entrado um espírito”. As minhas fontes garantem que o Comandante Provincial da Polícia do Icolo e Bengo já está a tomar conta do assunto.

Assim começou o terror no Sequele. Nesta e noutras madrugadas, os blocos 1, 2, 3, 4, 6 e 7 foram afectados. O rasto de destruição não distingue filiação partidária, profissão ou crença. O fogo é democrático — consome tudo.

A simples justificação de que o confesso autor agiu sob o efeito de droga não basta. É manifestamente insuficiente para explicar uma acção coordenada e de tal dimensão. O país não pode contentar-se com explicações fáceis para factos graves. Quando a resposta é simplista demais, a pergunta torna-se maior.

A minha casa já foi alvo de vandalização; a minha viatura, igualmente. Apresentei formalmente participação às autoridades locais do SIC, que se deslocaram à residência para registar o facto. Porém, até ao presente momento, não há qualquer informação sobre o andamento da investigação, nem pistas conhecidas. O silêncio repete-se.

Há uma pergunta que deve ser feita, sem rodeios: a quem interessa semear o caos no país?
A vandalização da minha residência foi uma acção direccionada. Um delito político, sem dúvida. Os invasores não levaram absolutamente nada após se introduzirem na casa. Não encontraram o que, eventualmente, lhes teria sido incumbido retirar. Isso não é vandalismo comum; é mensagem.

Fica aqui o alerta: estas acções, pela nossa observação, não estão a acontecer por acaso. Servem de ensaio, de teste ou de aviso. Quando os avisos deixam de produzir efeito, a escalada tende a seguir-se.

Amanhã, a viatura — ou mesmo a residência — do jornalista Carlos Alberto poderá aparecer incendiada, acompanhada da conveniente explicação de que alguém terá ingerido uma “légua” e, por iniciativa própria, decidido atear fogo aos seus bens. E ainda poderá aparecer um responsável do Estado a lamentar a morte do jornalista e a garantir as despesas do óbito. Em tempos estranhos, as justificações surgem com uma rapidez quase pedagógica.

O Jornalista e Director do Portal “A DENÚNCIA” sabe que se tornou alvo. Não desistirá, nem recuará. Pelo contrário, intensificará as suas investigações. A intimidação nunca substituiu argumentos — apenas confirma a ausência deles.

Nos próximos dias, trarei outros dados — alguns, aliás, já em posse da Procuradoria-Geral da República (PGR). Há fortes indícios de um plano de desestabilização em curso. Não se trata de coincidências sucessivas; trata-se de factos que exigem leitura articulada.

O jornalista Rafael Marques escreveu várias reflexões, levantando dúvidas pertinentes sobre a acusação que pesa contra cidadãos russos e um jornalista detidos na sequência dos actos de violência ocorridos no final do mês de Julho do ano passado. As interrogações permanecem.

Enquanto isso, as autoridades mantêm-se impassíveis. A questão lógica e incontornável é uma só: a quem interessa criar um estado de terror em Angola? Se os alegados responsáveis já estão detidos, o que explica os novos episódios? Quem beneficia com o medo? E, sobretudo, quem responde por ele?

*Jornalista e Director do Portal “A DENÚNCIA”
+244 923 570 539 (WhatsApp)
01Mar26

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