O gesto de abrir portas – Rui Kandove
Nuno Álvaro Dala pertence ao célebre grupo de ativistas conhecido por 15+2, acusado de tentativa de golpe de Estado — um capítulo decisivo na história do activismo contemporâneo em Angola.
Por: Rui Kandove
Em Junho de 2015, forças de segurança angolanas prenderam 15 ativistas (aos quais mais dois se juntariam posteriormente), em Luanda, enquanto participavam numa reunião de um book club dedicada à leitura e discussão de livros sobre democracia e resistência não violenta. O principal livro em análise era From Dictatorship to Democracy, de Gene Sharp, um texto amplamente difundido sobre estratégias pacíficas de transição política, além de um manuscrito adaptado por um autor angolano.
Foi um momento em que, apesar de toda a pressão, os jovens ativistas nunca aceitaram “vender” a motivação da luta pela causa comum.
Depois dessa “aventura”, Nuno Dala entrou no Parlamento pelas mãos de Abel Chivukuvucu. O gesto foi lido por muitos como reconhecimento da coerência de um militante comprometido com a causa comum. Mais tarde, com a possibilidade real de abandonar o Parlamento — na medida em que o projeto político de Abel Chivukuvucu transitava para partido, criando incompatibilidades com a continuidade dos deputados eleitos nas listas da UNITA —, Nuno Dala rompeu com o líder do PRA-JA Servir Angola e integrou a UNITA.
Esse gesto levou muitos a questionarem a coerência que trazia do activismo. Nuno passou a ser acusado, injustamente, de instrumentalizar o ativismo para fins pessoais. “Dizia uma coisa enquanto activista e defende outra agora que é deputado e melhorou a sua condição de vida”, desabafou um influencer digital conhecido da praça pública.
Apesar das críticas, Nuno Dala chega ao governo-sombra da UNITA ocupando uma pasta de relevo. Tomou posse como ministro da educação do governo sombra.
Há momentos na política que, mesmo sem força executiva, carregam um peso simbólico considerável. O anúncio de Dala como Ministro da Educação no governo-sombra da UNITA é um desses momentos. Não se trata de poder real, mas de uma mensagem clara: Adalberto Costa Júnior aposta em vozes que não nasceram dentro da máquina partidária, mas que conquistaram autoridade no espaço público.
Dala, académico e crítico social, representa a ousadia de trazer para o centro alguém “não orgânico”, mas dotado de credibilidade intelectual. É como se ACJ dissesse: a renovação não se faz apenas com militantes, mas com cidadãos que pensam o país.
Algo semelhante já ocorrera com Irina Dinis, nomeada secretária provincial adjunta de Luanda. Jovem, com energia própria e formação no estrangeiro, simboliza a abertura da UNITA a novos rostos e a novas linguagens políticas.
Há aqui uma metáfora de transição: Adalberto Costa Júnior abre portas e deixa entrar o vento fresco da sociedade civil. É um gesto que soma pontos — não porque altera imediatamente a correlação de forças, mas porque projecta uma imagem de futuro. A UNITA apresenta-se, assim, como um espaço de inclusão, capaz de atrair talentos dispersos e de lhes conceder protagonismo político.
Num país marcado por estruturas rígidas e pela recorrência dos mesmos nomes, escolhas deste tipo são sinais de ruptura. É como plantar árvores num terreno árido: não dão sombra no primeiro dia, mas anunciam que o horizonte pode ser diferente.
Abrir portas não é apenas um gesto político. É uma promessa de horizonte.




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