Numa cidade australiana as pessoas vivem (luxuosamente) debaixo da terra

Numa cidade australiana as pessoas vivem (luxuosamente) debaixo da terra

No coração do árido interior australiano, encontra-se a pequena localidade de Coober Pedy, onde viver debaixo da terra não é apenas uma curiosidade, mas sim um verdadeiro modo de vida.

À medida que o mundo enfrenta o aumento das temperaturas e fenómenos meteorológicos extremos devido às alterações climáticas, o estilo de vida singular dos habitantes de Coober Pedy oferece lições intrigantes para o futuro da habitação humana.

Situada a 848 km a norte de Adelaide, Coober Pedy é facilmente reconhecida pela sua paisagem invulgar: montículos de terra clara, espalhados pelo deserto de tom salmão, salpicados de tubos de ventilação brancos que emergem do solo.

Estes são sinais que denunciam a existência de casas, igrejas e até parques de campismo construídos sob a superfície da terra.

Com uma população de cerca de 2.500 pessoas, cerca de 60% dos residentes de Coober Pedy vivem nestes abrigos subterrâneos, escavados no arenito e nas macias rochas sedimentares da região.

A cidade foi fundada em 1915, para acolher os mineiros que exploravam os enormes filões de opalas da região — um dos maiores depósitos desta pedra preciosa em todo o mundo.

Nos anos 1960 e 70, os habitantes começaram a ampliar as suas casas — e a construir novas habitações — da mesma forma que criaram as minas de opala: usando pás, picaretas e explosivos.

A razão para este estilo de vida subterrâneo é simples: sobrevivência. No verão, as temperaturas ultrapassam frequentemente os 50°C, tornando a vida à superfície praticamente impossível sem recurso a sistemas de ar condicionado dispendiosos.

Pelo contrário, as casas subterrâneas mantêm uma temperatura constante e confortável de 23°C ao longo de todo o ano, independentemente do calor abrasador exterior ou das noites frias de inverno.

Este arrefecimento passivo não só é eficiente em termos energéticos, como também é económico, especialmente numa localidade onde a electricidade é maioritariamente gerada a partir do vento e da energia solar.

A arquitectura subterrânea de Coober Pedy não é uma ideia nova.

Há milénios que os seres humanos procuram refúgio debaixo da terra para escapar a climas rigorosos — dos antigos complexos trogloditas da Capadócia, na Turquia, onde cidades inteiras como Derinkuyu foram construídas abaixo do solo, até à cidade rochosa de Petra, na Jordânia.

Os espaços subterrâneos proporcionam temperaturas estáveis e protecção contra condições meteorológicas extremas — um princípio ainda hoje valorizado.

A construção de abrigos subterrâneos em Coober Pedy é relativamente simples, graças ao arenito macio mas estável, que pode ser escavado manualmente ou com recurso a maquinaria.

O preço acessível das casas é outro factor de atracção: um abrigo básico com três quartos pode custar apenas 40 mil dólares australianos (cerca de 22 mil euros), uma fracção do preço das casas nas grandes cidades.

Viver debaixo da terra traz ainda outras vantagens: poucos insetos, menos ruído e poluição luminosa, e até alguma proteção contra sismos. Já para não falar de que, no caso de Coober Pedy, há uma probabilidade elevada de tropeçar numa opala enquanto estamos a abrir mais um quarto.

Alguns habitantes transformaram os seus abrigos em residências luxuosas, com tetos altos, divisões espaçosas e comodidades modernas, tudo escondido sob uma paisagem aparentemente desolada.

Contudo, a vida subterrânea não está isenta de desafios. O arenito macio facilita as escavações em Coober Pedy, mas construir debaixo da terra em climas mais húmidos é muito mais difícil, pois a humidade e a má ventilação podem causar problemas de bolor e infiltrações.

As habitações subterrâneas funcionam melhor em regiões áridas, como acontece em Coober Pedy e noutros locais secos, como Kandovan, no Irão.

Apesar destas limitações, a ideia de viver sob a terra atrai cada vez mais interesse, à medida que cidades de todo o mundo enfrentam vagas de calor, incêndios florestais e o aumento dos custos energéticos.

Em cidades como Chongqing, na China, antigos abrigos antiaéreos estão a ser reaproveitados para ajudar os habitantes a escapar ao calor extremo, num eco da lógica dos abrigos de Coober Pedy.

À medida que os efeitos das alterações climáticas se intensificam, o modelo de Coober Pedy pode inspirar novas abordagens para uma vida sustentável e confortável—debaixo da terra.

Com as condições certas, as peculiares “pirâmides de areia” da cidade australiana poderão começar a surgir noutras partes do mundo, oferecendo um refúgio fresco e silencioso face aos desafios que se impõem à superfície.

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