Carlota Dias e o silêncio que não lidera – Carlos Alberto
Ponto prévio: esta análise não visa estender qualquer “tapete vermelho” às opositoras de Carlota Dias. Trata-se de uma leitura jornalística baseada em factos observáveis e num princípio simples: fugir à imprensa é sempre um mau sinal político e social, sobretudo para quem aspira a cargos de liderança.
Não considero normal que alguém que se propõe liderar uma organização com peso político e histórico como a Organização da Mulher Angolana (OMA) se furte a prestar declarações aos órgãos de comunicação social. A liderança, sobretudo em estruturas políticas, começa pela disponibilidade para explicar ideias, prestar contas e enfrentar o contraditório.
O que se assistiu ontem, sábado, 17, na OMA, com a candidata Carlota Dias, não é um sinal positivo. Apesar de ter obtido uma percentagem expressiva na eleição interna que a seleccionou — a par de Graciete Dombolo Sungua —, Carlota Dias optou por ignorar os jornalistas presentes, recusando qualquer contacto ou esclarecimento público após o acto.
Contactada no local para prestar declarações à imprensa, a candidata optou por não responder e abandonou o espaço, ignorando totalmente os profissionais de comunicação social que aguardavam reacções e explicações.
Este episódio não surge isolado. O Portal “A DENÚNCIA”, na pessoa do autor deste texto, havia já desafiado Carlota Dias, no ano passado, quando o seu nome passou a ser publicamente apontado como candidata, para uma Grande Entrevista — Sem Filtros, com o objectivo claro de permitir a apresentação das suas ideias, visão política e prioridades para a OMA. O convite não teve seguimento. A candidata mostrou-se indisponível para enfrentar uma entrevista num formato aberto, crítico e sem condicionamentos prévios.
O que aconteceu ontem, com os colegas da comunicação social, não foi, portanto, um episódio pontual, mas mais uma demonstração de um padrão de evitamento da imprensa. Um padrão que, vindo de alguém que aspira ao cargo de secretária-geral da OMA, deve ser politicamente analisado.
Este comportamento levanta uma questão simples, mas relevante: como pode uma candidata a um cargo político de direcção pretender liderar e mobilizar sem estar disponível para defender publicamente as suas ideias?
A imprensa não é um acessório decorativo da democracia. É um instrumento essencial de escrutínio, transparência e mediação entre dirigentes e cidadãos. Fugir às perguntas não protege uma candidatura; fragiliza-a. Revela desconforto com o debate público e limita a construção de confiança.
Importa sublinhar que este episódio ocorre num contexto particularmente sensível para o MPLA. O maior partido do país enfrenta desafios profundos na sua relação com a sociedade, num momento em que o desgaste político é amplamente perceptível, inclusive nos contactos directos que cidadãos estabelecem com jornalistas nas ruas e em espaços públicos.
Neste quadro, as organizações partidárias e associadas, como a OMA, deveriam assumir um papel acrescido de clarificação política, proximidade com as bases e comunicação aberta. Uma eventual secretária-geral que raramente se disponha a defender as suas ideias na imprensa não transmite a robustez política necessária para enfrentar os desafios actuais do MPLA.
Não se trata de exigir exposição excessiva nem protagonismo mediático. Trata-se de um princípio elementar da vida pública: quem quer liderar tem de saber falar, explicar e responder. A política não se faz apenas em reuniões internas nem em ambientes controlados; faz-se no espaço público, com perguntas abertas e respostas claras.
A recusa em falar não prova, por si só, ausência de ideias. Mas transmite essa percepção. E, em política, a percepção pública pesa tanto quanto a substância.
A OMA nasceu para mobilizar, formar e dar voz às mulheres angolanas. Não pode transformar-se numa estrutura onde o silêncio substitui o debate e onde a fuga ao escrutínio é normalizada.
Em política, quem não fala quando é chamado a explicar-se acaba inevitavelmente por ser falado — e quase nunca de forma favorável.
Jornalista e Director do Portal “A DENÚNCIA”
+244 923 570 539 (WhatsApp)
18Jan26




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